Jornalista da Globo e Jean Wyllys batem boca sobre Dilma no Twitter

Clique nas imagens e confira a discussão entre Jean e Leilane

Nesta quinta-feira (31), Leilane Neubarth e Jean Wyllys protagonizaram um barraco no Twitter. A jornalista da GloboNews bateram boca sobre suas opiniões em relação ao impeachment de Dilma Rousseff.

 

Jean tinha publicado uma imagem na qual convocava seus seguidores para uma manifestações contra a saída da presidente. “Há 52 anos o Brasil foi mergulhado em mais de vinte anos de escuridão”, dizia o texto, em uma alusão ao golpe de 64.

A jornalista decidiu comentar a postagem e logo começou uma discussão entre os dois, que criaram grande polêmica nas redes sociais após seguidores também começarem a comentar.

O bate-boca terminou depois de Leilane dizer que os dois eram amigos e para as pessoas não brigarem por assuntos políticos.

Veja a discussão nas fotos abaixo…

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Se o presidente do Brasil e o vice morrerem, quem assume o cargo?

 

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O presidente da Câmara dos Deputados (atualmente, o peemedebista Eduardo Cunha). Ele é o terceiro na linha de sucessão presidencial do país, segundo a Constituição Federal. Se ele também bater as botas, a responsabilidade vai para o presidente do Senado Federal e, depois, para o presidente do Supremo Tribunal Federal. Mas esses três só assumem provisoriamente, até que uma nova eleição seja convocada. O prazo para organizar esse pleito é de 90 dias, mas, se for nos últimos dois anos do mandato, cai para 30 dias. De uma forma ou de outra, o presidente e vice escolhidos na eleição extraordinária vão governar apenas até completar o mandato de seus antecessores.

Braço direito de Temer, Moreira fala em corte de programas socais

images_cms-image-000488751.jpgResponsável pelo documento “Ponte para o Futuro”, Moreira Franco defende cortes em programas como o Fies e o Minha Casa, Minha Vida, que conta com subsídios do FGTS; “Isso precisa ser enfrentado antes que vire um grande problema: estão levando o uso do FGTS ao limite – e o fundo é do trabalhador, precisa ser remunerado, não dá para fazer graça com o dinheiro do outros”, afirma; PMDB também estuda revisão de gastos do SUS

Uma reportagem da jornalista Alexa Salomão informa que as diretrizes econômicas de um eventual governo Michel Temer preveem uma revisão drástica dos gastos sociais.

Um dos principais responsáveis pelo programa é o ex-governador do Rio de Janeiro, Wellington Moreira Franco, que elaborou o documento “Ponte para o futuro”.

As mudanças envolvem a revisão de vários programas sociais, como o Minha Casa, Minha Vida e o Fies, além do próprio Sistema Único de Saúde.

“Avaliamos medidas da área social que possam beneficiar a população, combater a pobreza e, ao mesmo tempo, manter o equilíbrio fiscal e a saúde das contas públicas: são medidas que já foram usadas no Brasil, que são adotadas em vários países”, disse Moreira Franco.

Um dos seus alvos é o programa habitacional do governo Dilma, que conta com subsídios do FGTS. “Isso precisa ser enfrentado antes que vire um grande problema: estão levando o uso do FGTS ao limite – e o fundo é do trabalhador, precisa ser remunerado, não dá para fazer graça com o dinheiro do outros.”

Ele também falou sobre o Fies, o Fundo de Financiamento Estudantil. “O Fies é eficaz, mas precisa de meritocracia”, afirmou Moreira. “Não pode ocorrer como no ano passado, quando vimos 3 milhões de alunos perdidos, sem repasses, ouvindo a desculpa que havia problema no sistema de informática, mas era falta de dinheiro para todo mundo.”

“Existe ainda a leitura de que é fundamental fazer uma intervenção no SUS. O sistema é vital, mas está fora de controle. Não há, porém, clareza sobre como reorganizá-lo. Ao final, as propostas de cunho social vão se somar as da área macroeconômica para criar um pacote de reestruturação dos gastos”, informa a reportagem de Alexa Salomão.

Fonte: Brasil 247

Hoje começa a campanha “Desliga a Globo que o Brasil melhora”. ‪#‎ParaTiGlobo‬

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Utilizem a tag ‪#‎ParaTiGlobo‬ no Twitter.
Confira aqui todas todas as falcatruas que a Globo esconde de você.

Bepe Damasco – Com palestras dos jornalistas e blogueiros Paulo Henrique Amorim e Miro Borges, dia 3 de março, HOJE, no auditório da CUT-RJ, às 18h, a direção da central no Rio lança campanha para esclarecer a população o quanto a Globo faz mal ao país.

Tradicional inimiga das causas populares e democráticas, a Rede Globo, líder do monopólio midiático brasileiro, tem se superado cada vez mais em termos de manipulação da informação, da mentira e do assassinato de reputações. Tudo em nome dos seus interesses políticos e comerciais.

Nunca é demais lembrar o currículo dessa organização. A Globo esteve na linha de frente da campanha que levou Vargas ao suicídio, tentou de todas as maneiras impedir a posse de Jango e apoiou o golpe militar que censurou, perseguiu, cassou, baniu, prendeu, sequestrou , torturou e assassinou tantos opositores do regime.

As empresas da família Marinho tentaram sabotar a campanha das Diretas Já e escreveram um dos capítulos mais tristes do jornalismo brasileiro nas eleições presidenciais de 1989, quando editaram de forma grosseira o debate entre Lula e Collor, para prejudicar o candidato do PT.

A criminalização dos movimentos sociais e a oposição a tudo que lembre inclusão social e soberania nacional são outras marcas registradas globais. Agora, a Globo aposta suas fichas no cerco midiático aos ex-presidente Lula e a tudo que ele representa em termos de melhoria de vida dos mais pobres e desfavorecidos.

A boa notícia, porém, é que cada vez mais brasileiros percebem a que interesses antipopulares servem o império de comunicação da família mais rica do país, segundo a revista Forbes. Por isso, sua audiência despenca a olhos vistos , bem como seus leitores. Nas manifestações de rua tornou-se obrigatório o grito “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo.”

Contudo, não podemos menosprezar a força de um monopólio de 50 anos na disputa por corações e mentes. E a campanha “Desliga a Globo que Brasil melhora” é parte do movimento pela democratização da mídia, na qual a CUT tem papel destacado.

Fonte: Debate Progressista

[ATENÇÃO] OAB apoiou o golpe de 64

OABHouve quem se surpreendesse com a decisão do Conselho Federal da OAB de apoiar o impeachment de Dilma Rousseff. Mas quem sabe como a Ordem se comportou 52 anos atrás recebeu a notícia até com certo enfaro. Zero de espanto. Em 1964, o Conselho Federal da OAB saudou a deposição de João Goulart e o fim abrupto do governo constitucionalmente eleito. Em êxtase, alegrou-se com o golpe.

Quem afirma isto não é o reles escriba mas…a OAB. Abre aspas: “Dessa forma, a Ordem recebeu com satisfação a notícia do golpe, ratificando as declarações do presidente Povina Cavalcanti, que louvaram a derrocada das forças subversivas”. É o que está registrado, com todos os verbos e adjetivos, no próprio site do Conselho Federal.

Então na presidência da OAB, o alagoano Carlos Povina Cavalcanti “parabenizou a atuação do Conselho, considerando-a lúcida e patriótica ao alertar, durante a reunião realizada a 20 de março, os poderes constituídos da República para a defesa da ordem jurídica e da Constituição”.

Com a palavra Cavalcanti, estendendo-se um pouco sobre as razões da pregação golpista: “(…) antecipando-nos à derrocada das forças subversivas, acionadas por dispositivos governamentais, que visaram, em disfarces, a destruição do primado da democracia e a implantação de um regime totalitário no qual submergiram todos os princípios da liberdade humana, tivemos a lucidez e o patriotismo de alertar, na memorável reunião extraordinária de 20 de março findo, os poderes constituídos da República para a defesa da ordem jurídica e da Constituição, tão seriamente ameaçadas”.

Em outro trecho do documento reproduzido pelo site, Cavalcanti argumenta que “(…) Sem sairmos da órbita constitucional, podemos hoje, erradicar o mal das conjunturas comuno-sindicalistas e proclamar que a sobrevivência da Nação Brasileira se processou sob a égide intocável do Estado do Direito. Que a Providência Divina inspire os homens responsáveis desta terra e lhes ilumine a consciência jurídica, pois que sem o direito, como pregou Rui Barbosa, não há salvação”. É o que consta da ata da 1115ª. sessão realizada em 7 de abril de 1964.

Neste precioso parágrafo, a OAB reproduz um argumento recorrente durante o autoritarismo: o golpe foi dado para salvar a democracia. Em outras palavras, implantou-se uma ditadura porque a ordem democrática corria perigo e poderia ser substituída por um regime ditatorial. Bingo!

Em alto e bom som, sente-se o eco da novilíngua engendrada por George Orwell. No seu romance 1984, o nome das coisas significa justamente o oposto do que se afirma. Bom é mau, paz é guerra, liberdade é escravidão. Outro ingrediente da distopia orwelliana, o duplipensar, também ingressaria na dança. É a capacidade de conciliar duas crenças opostas ao mesmo tempo e de acreditar genuinamente na fabulação que produz.

Como paradoxo pouco é bobagem, Cavalcanti arremata proclamando, Ruy Barbosa a tiracolo, que “sem o direito não há salvação.” Sob a tirania, o direito atenderia pelo nome curto e grosso de AI-5. Mais Orwell.

Sete dias após o estupro da Constituição ter sido visto como relação consensual, o Conselho Federal exultava. Na sessão ordinária de 7 de abril, “a euforia transborda das páginas da ata que registrou o encontro”, registrou a historiadora Denise Rollemberg, autora de Memória, Opinião e Cultura Política. A OAB sob a ditadura (1964-1974). E prossegue: “A euforia da vitória, de estar ao lado das forças justas, vencedoras. A euforia do alívio. Alívio de salvar a nação dos inimigos, do abismo, do mal”. Em júbilo, Cavalcanti chamou os conselheiros de “cruzados valorosos do respeito à ordem jurídica e à Constituição” e se apresentava, orgulhoso, como “em paz com a nossa consciência”.

No livro Modernidades Alternativas, de 2008, a pesquisadora investigou o comportamento da OAB na primeira década da ditadura. Em entrevista ao repórter Chico Otávio, de O Globo, sustentou que aquilo que se conhece como a postura critica da Ordem ao poder militar somente aconteceu a partir de 1972. Até então, oscilou entre o apoio aos generais no poder, o mutismo e uma discreta desaprovação às prisões arbitrárias. Mais: nos primeiros meses após o AI-5, o golpe dentro do golpe, editado em 13 de dezembro de 1968, só uma voz se ergueu claramente contra a abominação, a do advogado Heráclito Sobral Pinto. Voto vencido entre os conselheiros, Sobral apoiara a derrubada de Jango e se arrependera. “No mais, o silêncio foi a resposta da Ordem ao ato que eliminou o que ainda restara de direitos civis”, declarou Denise Rollemberg ao repórter.

Foi um silêncio interessante. Quatro dias após o AI-5, o ex-presidente da OAB, Cavalcanti, foi nomeado pela tirania para compor a Comissão Geral de Investigações (CGI) que pretendia extirpar a corrupção. O levantamento de Denise Rollemberg constatou que Cavalcanti não estava sozinho. Diversos presidentes regionais da Ordem juntaram-se às subcomissões de investigações nos seus estados. A CGI seria um fracasso mas esta é outra historia.

Antes, mal o golpe assoprara a primeira vela de seu bolo, e o vice-presidente da OAB, Alberto Barreto de Melo, resolveu criticá-lo. Não pela repressão mas por repressão insuficiente. Reclamou que antigos colaboradores do governo Goulart ainda continuavam na administração pública. Era preciso alijá-los também. Garimpando as atas do CF, Denise Rollemberg recolheu a manifestação da conselheira Maria Rita Soares de Andrade que aplaudia a edição do AI- 2 “como um ato de legítima defesa ditado pelo estado de necessidade em que se viu a revolução que tem o dever de preservar seus objetivos”. Na época, o golpe atendia por “revolução” — Orwell mais uma vez. Baixado em outubro de 1965, o Ato Institucional 2 reabriu processos de cassação, extinguiu partidos políticos, determinou que funcionários públicos estáveis seriam sumariamente demitidos se suas atividades não fosse consideradas compatíveis com os objetivos do regime de força e consagrou a intervenção direta do Executivo sobre o Judiciário.

Existe outro episódio espinhoso para a história da OAB vinculado aqueles ásperos tempos. Em maio de 1964, ainda através de Cavalcanti, ela participou da comissão designada pelo ditador Castelo Branco para verificar a integridade física de nove membros de missão comercial da República Popular da China. Resultado de acordo entre os dois países, a missão estava no Brasil desde 1961. Detidos sob suspeita de conspiração, os chineses tomaram 10 anos de cadeia. Cumpriram pouco mais de um ano e com a ajuda gratuita do velho Sobral, novamente ele, conseguiram ser repatriados. Não se sabe qual foi o parecer da comissão oficial mas o fato é que os estrangeiros, como relatariam mais tarde, foram torturados.

Um deles, Ju Quingdong, funcionário da agência de notícias Xinhua, contou que teve a casa arrombada, foi espancado, ameaçado de morte e queimado com brasa de cigarros no Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Pisoteado na barriga, sofreu uma evacuação involuntária. E os meganhas do Dops puseram a mão em todo o dinheiro que possuía e que nunca mais viu. Em 2014, aos 84 anos, ele esmiuçou os suplícios à Comissão da Verdade/RJ.

Se na alvorada do golpe, a OAB brindou aos “homens responsáveis desta terra” que baniram “o mal das conjuras comuno-sindicalistas”, mais tarde constataria o trágico resultado da sua opção. No começo da tarde de 27 de agosto de 1980, a secretária Lyda Monteiro da Silva, de 59 anos, abria a correspondência do presidente do Conselho Federal da Ordem, Eduardo Seabra Fagundes, quando uma carta-bomba explodiu, matando-a.

Entre uma e outra data, a OAB mudara. Apesar de sua postura, no mínimo, ambígua durante os oito primeiro anos da gestão ditatorial, o Conselho Federal, assegura que, logo nos primeiros meses, começou a vislumbrar “a verdadeira face do novo regime”. Em 1977, presidida por Raymundo Faoro, a Ordem empenhou-se pela revogação da Lei de Segurança Nacional e do AI-5, a defesa dos presos políticos, o fim da tortura. Também pelo retorno das garantias plenas da magistratura e do habeas corpus, além da convocação de uma assembléia nacional constituinte. Transformou-se, então, em alvo de terroristas de ultradireita, contrários à abertura política. Nem parecia que aquilo tudo, que ajudara a partejar com sua adesão entusiasmada, nascera “sob a égide intocável do Estado do Direito”.

Sul21

Há golpe no ar: O complô para desestabilizar Dilma Rousseff, Lula e o Brasil

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Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

por Shobhan Saxena, na The Wire

Partidos neoliberais, mídia comercial, Judiciário conservador, lobbyistas das petroleiras, elite branca e grupos de direita, com ajuda abundante que vem de fora do país, reuniram-se em gangue para derrubar o governo do Brasil. E a coisa está sendo feita de modo a fazer crer que teria havido um levante popular contra regime corrupto.

São Paulo: Em novembro de 2009, The Economist põe o Brasil na capa. “Brasil Takes Off” [Brasil decola], diz a manchete, sobre uma foto do icônico Cristo Redentor, como se decolasse sobre o mar azul, feito uma nave espacial. Prevendo que “o Brasil está a caminho de tornar-se a 5ª maior economia do mundo, deslocando a Grã Bretanha e a França”, a revista dizia que a maior economia da América do Sul deveria “tomar maior velocidade nos próximos cinco anos, com a ativação dos campos de petróleo de mar profundo, e os países asiáticos ainda famintos de alimento e minérios da vasta e dadivosa terra do Brasil.”

Em 2009, mesmo com o mundo ainda convalescendo de uma catastrófica crise financeira, The Economist viu o Brasil como a maior esperança do capitalismo global.

Naquele momento, a revista britânica não era a única apaixonada pelo Brasil. Sob a liderança de Lula da Silva, o país testemunhava prosperidade sem precedentes e mudança social. A própria ascensão pessoal de Lula, de menino pobre e empregado metalúrgico à presidência do maior país da América Latina era material do que se enchem as lendas. Foi tema de vários livros e de um filme de sucesso. Na reunião do G-20 em Londres, em abril de 2009, o presidente dos EUA Barrack Obama disse dele que era “o político mais popular da Terra”. E dois dos maiores espetáculos esportivos – a Copa do Mundo da FIFA (2014) e as Olimpíadas (2016) – marcados para acontecer no país, o Brasil, há tanto tempo conhecido como “o país do futuro”, pareceu estar chegando finalmente ao centro do palco global.

Sete anos adiante, o Brasil já parece um país completamente diferente. Lula, que concluiu o segundo mandato em 2010, com aprovação de 80% da população, foi detido, esse mês, para ser interrogado na investigação de um escândalo de corrupção que já pôs na cadeia alguns de seus camaradas do Partido dos Trabalhadores (PT). A sucessora de Lula, presidenta Dilma Rousseff enfrenta pedido de impeachment no Congresso. A economia do país encolheu 3,5% ano passado, e esse ano não verá melhor resultado. A inflação chegou aos dois dígitos e centenas de milhares de brasileiros enfrentam o desemprego. E milhões de pessoas tomaram as ruas, muitos em apoio, muitos em oposição, ao governo. Ninguém parece nem remotamente preocupado com as Olimpíadas do Rio de Janeiro, que estão a menos de cinco meses de começarem. E a mídia comercial – global e brasileira – já rifou Lula, Rousseff e o Brasil.

A história do Brasil começou a perder grande parte do brilho em 2013, especialmente aos olhos da mídia-empresa internacional e de negócios. Em setembro de 2013, novamente The Economist põe o Brasil na capa. A matéria pingava veneno e culpava Rousseff, então no governo há três anos, mas que enfrentaria eleições de reeleição no ano seguinte, por ter feito “muito pouco para reformar seu governo nos anos doboom.” Acusava o Brasil de ter “impostos demais”, “excessivo gasto público” e de pagar aposentadorias exageradamente “generosas”.

Aquele não foi um bom ano para o Brasil. A economia patinava e centenas de milhates de pessoas saíram às ruas em manifestações contra o governo, pouco antes do início da Copa das Confederações da FIFA, para protestar contra a corrupção e exigir melhores serviços públicos. A economia parecia estar completamente paralisada.

Mas… O que deu errado entre 2009 e 2013? Como aconteceu de Rousseff, que em 2010 a revista Forbes declarara a mulher mais poderosa do mundo, virar, de repente, fraca e incompetente? Como aconteceu de a história do Brasil passar, da esperança ao desespero, em tempo tão curto?

A resposta é simples: petróleo e o dinheiro, a força e a política que o petróleo gera.

Em 2007, o Brasil descobriu um campo de petróleo com quantidades imensas de petróleo numa região do pré-sal em águas oceânicas profundas. No período de um ano, o país descobriu reservas de petróleo e gás natural que ultrapassam os 50 bilhões de barris – a maior reserva confirmada na América do Sul. Com isso, o Brasil passou a ser o queridinho dos mercadores de petróleo do planeta e de Wall Street.

A empresa estatal petroleira do Brasil, Petrobrás sempre tivera o monopólio da exploração do petróleo no Brasil desde a criação da empresa, em 1953, mas o setor abriu-se, em 1997, para a Royal Dutch Shell. Com as descobertas de 2007-08, gigantes globais como as empresas Chevron, Shell e ExxonMobil puseram os olhos no Brasil, antevendo contratos lucrativos. Mas não fecharam negócio algum.

Em 2007, Lula restabeleceu parcialmente o monopólio da Petrobrás sobre o petróleo brasileiro. Prepararam-se leis, sob orientação de Rousseff, então ministra de Lula, que deram à Petrobrás direitos de exclusividade na exploração, com todos os lucros do petróleo orientados para os programas sociais do governo, de Educação e Saúde. E a Petrobrás também iniciou parcerias com outras petroleiras estatais de outros países, principalmente com petroleiras chinesas (as petroleiras indianas ONGC e Bharat Petroleum também são parceiras da Petrobrás e têm escritórios no Rio de Janeiro, onde opera o quartel-general da empresa brasileira).

Imediatamente o Departamento de Estado e a Agência de Informação de Energia, AIE [ing.Energy Information Agency (EIA)] dos EUA puseram-se a trabalhar nolobbying de funcionários brasileiros, a favor das empresas dos EUA.

Telegramas diplomáticos secretos dos EUA distribuídos por Wikileaks em 2010 relevaram o quanto os norte-americanos estavam preocupados com a presença de empresas estatais chinesas no Brasil; e um dos telegramas expõe detalhadamente como os EUA tentavam naquele momento alterar as leis a seu favor (2/12/2009, “Pode a indústria do petróleo fazer retroceder a lei do pré-sal”, Emb. do RJ, Confidencial).

Em pouco tempo o Brasil entrou em modo de escolher quem sucederia Lula; e seu partido, PT, indicara Rousseff como sua candidata. O principal partido de oposição, o Partido da Social Democracia Brasileira, PSDB, que sempre apoiara a privatização da Petrobrás, escolheu, como seu candidato, o ex-governador de São Paulo, José Serra.

Os EUA acompanhavam muito de perto as eleições; documentos distribuídos por Wikileaks mostram que os EUA apostavam numa vitória de José Serra, para mudar as leis. “Deixe esses sujeitos (o PT) fazerem o que quiserem. Os leilões e concorrências não acontecerão, e depois nós mostraremos a todos que o velho modelo funcionava (…) e faremos tudo voltar ao que era antes” – lê-se em conversa entre José Serra com o lobby do petróleo.[1]

Mas Serra foi à lona, na disputa eleitoral contra Rousseff nas eleições de 2010. E a Petrobrás continuou como única operadora dos campos de petróleo do Brasil, e a renda do petróleo continuou a ir para programas sociais do governo.

Rapidamente, a chinesa Sinopec tornou-se ativa na exploração de petróleo em águas brasileiras, nos termos determinados pela lei, que estipulava um mínimo de 30% para a Petrobrás em todas as ventures. Esse foi o fim da lua-de-mel do chamado ‘Ocidente’, com o Brasil.

“Dado que o lobbying deles não conseguiu arrancar contratos de petróleo, o Brasil virou vilão, como a Venezuela. O governo dos EUA e empresas de petróleo lançaram contra nós um ataque clandestino. A mídia-empresa deles fez como manda o figurino” – disse no Itamaraty um experiente diplomata brasileiro, pedindo que seu nome não fosse divulgado. “Mas o governo também errou, ao depositar excessivas esperanças na Petrobrás e no petróleo, esquecendo que o petróleo é commodity cujo preço desaba quando menos se espera” – completou ele.

Chegado ao poder sobre a promessa de fazer do Brasil uma sociedade mais igualitária, com estado de bem-estar forte, o petróleo e a Petrobrás estavam no centro dos planos dos governos de esquerda para usar recuros e dinheiro público para combater a miséria, criar empregos públicos e levar o desenvolvimento para as áreas mais remotas do país. A Petrobrás não era aposta errada.

Em 2007, a capitalização da empresa no mercado alcançou $190 bilhões. Em 2010, último ano de Lula no governo, o Brasil crescera 7,5% e as coisas caminhavam para cima. Embora nos anos seguintes tenha havido uma queda na capitalização e nos lucros da Petrobrás, a empresa permaneceu como uma das maiores petroleiras do mundo. Mas as coisas ainda piorariam.

Entra em cena a Agência de Segurança Nacional dos EUA

Em junho de 2013, Edward Snowden, administrador de sistemas da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, em inglês), fugiu para Hong Kong com uma vasta quantidade de documentos confidenciais. Nos meses seguintes, trabalhando junto a vários jornalistas de diferentes órgãos de imprensa, Snowden disponibilizou uma série de arquivos, demonstrando como o governo norte-americano espionava políticos, governos, empresas e movimentos sociais ao redor do mundo. Surpreendentemente, o Brasil estava no topo da lista de alvos da NSA, que coletava mais informações daqui do que da Rússia ou da China. O governo americano alegou que a vigilância fazia parte de suas medidas antiterrorismo, mas os documentos sobre o Brasil – e países como a Índia – revelaram um quadro totalmente diferente. Logo ficou evidente que os alvos principais da NSA no Brasil eram a Petrobras e Rousseff.

O e-mail de Dilma, o telefone oficial e seu celular pessoal foram rastreados pela NSA, assim como todos os e-mails, telefonemas, mensagens e documentos oficiais da rede da Petrobras. Com essas revelações, a relação Estados Unidos-Brasil atingiu seu ponto mais baixo. Autoridades brasileiras foram rápidas em declarar que a espionagem tinha sido realizada em razão dos interesses dos EUA no petróleo e gás do Brasil.

Naquele período, a Petrobras estava prestes a leiloar uma de suas maiores jazidas petrolíferas, com a esperada participação de várias empresas americanas. Mas após Dilma ignorar Obama na reunião do G-20 na Rússia e as autoridades da Petrobras acusarem os Estados Unidos de roubarem informação que lhes daria “posição privilegiada no leilão”, histórias negativas sobre a empresa brasileira e seu iminente leilão começaram a surgir na mídia ocidental. Quando o leilão foi realizado, nenhuma empresa americana deu qualquer lance. O que Serra ‘previra’, aconteceu.

Com os segredos e informações sobre seus ativos copiados pelas instalações da NSA, a Petrobras era agora um alvo fácil. Sua queda apenas começava.

Em março de 2014, Alberto Yousseff, doleiro condenado por lavagem de dinheiro que havia sido preso cinco vezes, começou a dar com a língua nos dentes após negociar um acordo de delação premiada com os procuradores de Curitiba, capital do estado do Paraná, no sudeste do Brasil. Youssef denunciou muitas pessoas do alto escalão que, segundo ele, haviam sido beneficiárias de suborno, propina e lavagem de dinheiro na Petrobras. Desde então, a investigação sobre esse escândalo, chefiada pelo juiz Sergio Moro, levou a nomes de altos executivos brasileiro no ramo do petróleo e, mais importante, da liderança do PT.

Conhecida como “Operação Lava Jato”, a investigação se desenrola como uma telenovela, com pessoas de renome sendo levadas pela polícia ou mandadas para prisão por Moro em intervalos regulares.

Neste mês, o impensável aconteceu. O líder mais popular da história do Brasil esteve prestes a ser preso por suspeita de corrupção relacionada à Petrobras. No dia 3 de março, a Polícia Federal levou Lula de sua casa sob um “mandado de condução coercitiva” (que força a pessoa a testemunhar sobre um caso) e o deteve por cinco horas em um dos escritórios da polícia no aeroporto para voos domésticos de São Paulo.

Enquanto Lula era detido e liberado, a tensão foi-se acumulando pelo país com uma parte da sociedade brasileira – classe alta e de maioria branca – celebrando a ação policial, enquanto a outra parte protestava contra o “golpe”. O Brasil dividiu-se verticalmente no dia em que Lula foi detido.

História de golpes

O Brasil é país dividido, já há um bom tempo. Poucas pessoas no país aceitam a existência de linhas de ruptura de classe e raça, mas elas são visíveis todos os dias nos conflitos sociais e políticos do Brasil. Após anos de estresse, as linhas começaram a se agitar em junho de 2013 enquanto o Brasil se preparava para receber a Copa das Confederações da FIFA; milhares foram às ruas protestar contra o governo, com alguns pedindo o impeachment e outros ainda pedindo intervenção militar.

Ignorando a natureza racial e de classe dos protestos, a mídia – local e internacional – chamou aquilo de “primavera brasileira” – um levante contra governo impopular e corrupto.

Narrativa similar se repetiu nos últimos dias desde a detenção de Lula. Mas muitos do governo veem isso como conspiração. “O que está acontecendo no país é uma conspiração nacional e internacional para destruir o PT e introduzir no Brasil um modelo econômico como o atual (neoliberal) da Argentina” – disse o veterano diplomata brasileiro Samuel Guimarães a repórteres, após Lula ser detido pela polícia. “Isto é um golpe em andamento”.

O Brasil tem familiaridade com golpes. Assim como com as interferências externas dos Estados Unidos. No século 20, pelo menos três presidentes brasileiros perderam o mandato – e um, a vida – por realizar políticas populares, despertando a ira das elites do país e de Washington.

Em todos os casos, o culpado pela queda dos presidentes foi a alta da inflação, queda da renda e má administração da economia. Há um claro padrão nisso tudo. Getúlio Vargas, criador da Petrobras como uma empresa estatal e que deu direitos sociais aos pobres do país, foi acusado pela elite carioca, liderada pelo conglomerado midiático, de corrupção que ele nunca cometeu. Em 1954, pôs fim à humilhação pública ininterrupta com uma bala no peito.

O próximo a cair foi Jânio Quadros, vencedor da eleição presidencial com margem de diferença recorde em 1961. No mesmo ano, Jânio convidou o revolucionário argentino Ernesto “Che” Guevara ao Brasil, e o honrou com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Essa iniciativa alarmou a elite brasileira e os americanos, ambos paranoicos com a expansão do comunismo na América do Sul. Então, Jânio cometeu um erro ainda maior: nacionalizou jazidas minerais. Em menos de um ano, foi retirado do poder por um Congresso dominado por antigos capitalistas e pessoas leais a Washington.

Jânio foi substituído por João Goulart. Líder de centro com visões progressistas, Goulart começou a implementar políticas de aumento salarial para os trabalhadores, reforma agrária, direito ao voto para todos os brasileiros e justiça social. Enquanto o governo brasileiro se dirigia levemente para a esquerda, John F. Kennedy, o então presidente americano que ainda se recuperava do infortúnio na Baía dos Porcos em Cuba, começava a discutir com seus aliados as maneiras de tirar Goulart do poder.

De acordo com documentos do Arquivo da Segurança Nacional dos EUA, em março de 1963, Kennedy disse a seus aliados: “Temos que fazer alguma coisa quanto ao Brasil”. Logo depois, a mídia brasileira chamava Goulart de comunista e reclamava sobre a alta da inflação. Em 1964, sob o comando dos EUA, o exército brasileiro derrubou Goulart para “salvar o país” do comunismo. Até hoje, muitos círculos da elite brasileira chamam aquele golpe de “revolução”.

O mundo sabe dos regimes ditatoriais brutais da Argentina e do Chile, mas tudo começou no Brasil – em 1964. A maioria dos países sul-americanos foi devastada por décadas de ditaduras patrocinadas pelos EUA. Os países só iniciaram o retorno à democracia nos anos 90, após o fim da Guerra Fria.

Então, numa virada irônica de grande abalo para a Doutrina Monroe, um país após o outro, começando pela Venezuela, depois Brasil, Argentina, Uruguai e Chileelegeram governantes de esquerda. A América do Sul não era mais o quintal de Washington.

Nos últimos 15 anos, todas as nações sul-americanas testemunharam acelerado crescimento econômico à medida em que estabeleceram relações com a China,fazendo do país asiático o maior ator na região.

Tragédia pela segunda vez

A contínua marcha para a esquerda na América do Sul disparou os alarmes de Washington novamente e também tirou o sono da elite local. Depois de 13 anos de governo petista, durante o qual enormes planos de bem-estar social foram implementados, a elite brasileira está cega de preocupação com a “bolivarização” do Brasil – referência às políticas de esquerda da Venezuela sob o governo de Hugo Chávez. Em São Paulo, a capital financeira da América do Sul, as conversas de bar geralmente são em torno de como o Brasil está se “tornando uma Venezuela”. Os manifestantes antigoverno nas ruas repetem os mesmos slogans, enquanto agridem agridem qualquer um que lhes apareça vestido de vermelho.

Muitos dizem que a tragédia de 1964 está-se repetindo. “Estamos enfrentando uma estratégia de golpe de estado contra uma presidente eleita”, informou recentemente o historiador Paulo Alves de Lima ao jornal RT. “Estamos à beira de uma nova etapa de contrarrevolução, com uma democracia ainda mais restrita, impregnada de arrogância e violência institucional…”, disse Lima ao jornalista brasileiro Pepe Escobar, que vê a ‘mudança de regime’ no Brasil como um ataque contra o grupo BRICS.

No Brasil, muitos intelectuais, observadores políticos, ativistas sociais, peritos judiciais e membros do governo acreditam que, diferentemente de 1964, quando o exército liderou a tomada do governo, a atual “contrarrevolução” está sendo organizada e liderada pelos partidos neoliberais em conluio com lobistas do país, grupos de direita, a mídia corporativa e um “judiciário altamente politizado”.

Liderando o ataque ao governo Dilma Rouseff está o PSDB, autoproclamado democrata social, mas que de fato é um partido de direita que advoga políticas neoliberais e destruição de políticas sociais. Tendo perdido quatro eleições consecutivas para o PT, o PSDB testemunha uma guerra amarga entre seus líderes – todos desejando ser o presidente do país. O partido sentiu uma chance de vitória em 2015, após as pesquisas de opinião projetarem Dilma enfraquecida pelo escândalo da Petrobras e pelos protestos das ruas. No meio do processo eleitoral, após Eduardo Campos, um popular candidato do Partido Socialista Brasileiro, ter misteriosamente falecido num acidente de avião, o candidato pelo PSDB, Aécio Neves, começou a imaginar-se no palácio presidencial. A mídia ocidental o projetou como o salvador do Brasil. Banqueiro do Morgan Stanley chegou a comparar a ‘ascensão’ de Aécio ào do Primeiro-ministro indiano Narendra Modi.

Aécio estava certo de sua vitória após a revista Veja publicar uma matéria na véspera do 2º turno das eleições em dezembro de 2014, alegando que o doleiro Yousseff havia dito à polícia que Dilma e Lula sabiam da corrupção na Petrobras. Mas mesmo assim, Aécio  perdeu a eleição. Um mês após o início do segundo governo Dilma Rousseff, em janeiro de 2015, Aécio iniciou o pedido de impeachment, ainda tendo o artigo de Veja como “prova” da cumplicidade da presidente com o escândalo.

O artigo, publicado sem nenhuma resposta de Lula e Dilma, não era exceção. Os julgamentos da “Operação Lava Jato” estavam tanto na mídia quanto nas cortes,com vazamentos regulares de acusações feitas em delações premiadas. O magistrado de Curitiba, declaradamente influenciado pela operação Mani Pulite da Itália, tornou-se cultuado pela classe média, com suas fotos e frases espalhadas por revistas e jornais quase que diariamente.

Mas Moro, o juiz, também tem enfrentado críticas por suas táticas de manter os acusados na prisão, sem fiança, e utilizando-se de acordos de delação premiada para construir casos contra outros. Até o The Sunday Times de Londres recentemente publicou artigo sobre o juiz brasileiro, questionando a forma como ele conduz o caso.

O complexo judicial-jornalístico

 

Moro pareceu dar importância mínima a essas críticas, quando enviou a Polícia à casa de Lula para prendê-lo. Apesar de o nome do ex-presidente aparecer citado em incontáveis artigos que o dão como ligado ao escândalo, a verdade é que, até hoje ninguém apresentou qualquer tipo de prova contra ele – nem em tribunais nem em algum veículo de imprensa comercial. Além disso, o ex-presidente jamais se recusou a cooperar com a investigação. Portanto, quando Lula foi preso por mandato coercitivo assinado por juiz, muitos entenderam que o juiz Moro pisara fora da linha. Um juiz da Suprema Corte brasileira, Marco Aurélio Mello, criticou publicamente o juiz, porque “coerção só se aplicaria se Lula tivesse sido intimado e se recusasse a depor, o que não aconteceu.”

Mas, mesmo com a tática dura de Moro, a detenção de Lula não saiu conforme oscript. Tão logo a notícia da prisão espalhou-se por São Paulo, começaram as brigas a murros na calçada em frente ao prédio onde Lula mora. E a conta do PT no Twitter lançou mensagem em que Lula era chamado de “preso político”. Com as mídias sociais fervilhando de notícias sobre o “sequestro” de Lula pela polícia, centenas de pessoas começaram a reunir-se pelas ruas em São Paulo, gritando “Não vai ter golpe” [N. Quando já começavam a chegar notícias de multidões mobilizadas em outras cidades do país, o ex-presidente Lula foi deixado partir.] E dirigiu-se diretamente à sede do Partido dos Trabalhadores, onde falou a uma multidão de ativistas e estudantes. “Mereço mais respeito nesse país” – disse Lula, com ar cansado, mas resoluto. Na mesma noite, Lula estava numa reunião de sindicalistas, onde disse que, sim, pode candidatar-se à presidência em 2018. “Sinceramente, espero que tenha outras pessoas para serem candidatas. Agora, uma coisa pode ficar certa: se for necessário, eu vou para a disputa em 2018” – disse Lula a uma multidão reunida para ouvi-lo, no centro de São Paulo.

Até apoiadores ferrenhos do PT e de Lula consideram que o Partido dos Trabalhadores é em parte responsável pelo que acontece hoje no Brasil. O envolvimento de líderes do partido em atos de corrupção maculou sua imagem até entre seguidores. Além disso, o núcleo duro de apoio ao partido, sindicatos, movimentos sociais, ativistas e ideólogos de esquerda já se afastaram do PT, com Rousseff empurrando o governo para o centro e, ela própria, afastando-se daquelas bases. Nesse cenário, a prisão de Lula deveria ser o golpe de morte contra o PT. Na mídia comercial – local e global – Lula era apresentado como figura isolada. Na verdade, a situação em campo mostrou-se muito diferente, ante os milhões de apoiadores que se apresentaram nas ruas em apoio ao ex-presidente.

Mas outras reviravoltas estavam por vir.

Dia 11 de março, Rousseff ofereceu a Lula um posto de ministro de seu governo. Depois de muita discussão e adiamento, Lula afinal aceitou ser ministro da Casa Civil da presidenta Dilma (cargo, aproximadamente, de primeiro-ministro). O movimento foi considerado pelos petistas como necessário para salvar o governo do “golpe” em curso; a oposição não tardou a ‘denunciar’ o que, para ela, seria tentativa de salvar Lula de ser preso no “escândalo da corrupção”. Dia seguinte, o juiz Moro entregou à Globo TV a gravação de uma conversa telefônica entre a presidenta e o ex-presidente, em que conversam sobre a ida de Lula para o ministério. À noite, a TV Globo exibiu a gravação em horário nobre, interpretando as falas como se fossem uma espécie de ‘arranjo’, para garantir a Lula um cargo que o poria em situação de só poder ser julgado pela Suprema Corte.

Como se não bastasse divulgar material sem verificar a veracidade dos fatos e sem autorização legal, os âncoras e repórteres da TV Globo puseram-se a incitar a população a ir para as ruas protestar contra Lula e Rousseff.

A gravação pela Polícia Federal, de conversas de Rousseff no próprio telefone, quando a presidenta falava com um ex-presidente, imediatamente disparou uma comparação com a vigilância ilegal da Agência de Segurança Nacional dos EUA. Vários importantes juristas e especialistas em questões de escutas ilegais questionaram a decisão de Moro, de gravar conversas privadas e ‘vazá-las’ para a TV Globo, antes de a gravação ter sido apresentada como prova na corte. Mas Moro justificou sua ação, comparando o caso brasileiro ao escândalo Watergate que envolveu o ex-presidente Richard Nixon.

A gravação de 30 segundos, que já não tem qualquer valor judicial, deu munição à oposição para exigir a prisão de Lula e que se acelerasse a tramitação de um pedido de impeachment contra Rousseff.

Apesar de o ministro Mello da Suprema Corte já ter criticado Moro duramente, chamando de “crime” a ação de gravar clandestinamente conversas da presidenta, o vazamento da gravação e as manchetes histéricas de O Globo e da TV do mesmo grupo Globo tiveram o efeito desejado: a nomeação de Lula ao cargo de ministro foi bloqueada – e eclodiram movimentos de rua contra o governo Rousseff.

Dois Brasis, duas narrativas

No dia seguinte ao vazamento da conversa gravada, cerca de 1,5 milhão de pessoas, muitas usando a camisa amarela da seleção de futebol do Brasil e ostentando bandeiras do Brasil, saíram às ruas pelo país.

Com muitos fotógrafos e cinegrafistas em helicópteros registrando o mar de verde-e-amarelo na Av. Paulista em SP, onde se reuniram 400 mil pessoas, no maior protesto antigoverno da história da cidade, dia seguinte os jornais estavam também pintados de verde-e-amarelo. Quem visse pensaria que todo o Brasil exigia a cabeça do PT. Foi o que bastou para que a velha narrativa de “levante popular contra governo corrupto e ineficiente” voltasse às páginas da mídia comercial internacional.

A verdade é um pouco mais complicada.

Embora vestidos com as cores nacionais, as pessoas que protestaram naquele dia na Av. Paulista seriam qualquer coisa, exceto nacionalistas. Pesquisa da empresa Datafolha revelou que 80% dos ‘manifestantes’ anti-Rousseff e anti-PT eram brancos; 77% com formação universitária; e 75% classificados nos grupos de mais alta renda.

Num país cuja população apresenta 50% de brancos, 11% apenas, com formação universitária e menos de 6% classificados nos grupos de mais alta renda, não é difícil entender quem, afinal de contas, manifestava-se nas ruas contra o governo Rousseff. Praticamente todos ali eram representantes da elite da sociedade brasileira: ricos, brancos e conservadores.

A elite brasileira sempre manifestou grande incômodo com a vitória de candidatos populares de tendência de esquerda; o partido preferencial da elite era o PSDB – várias vezes derrotado nas urnas. No governo do PT, mais de 40 milhões de pessoas superaram a pobreza e ascenderam socialmente. Foi o período de mais consistente inclusão social, num país conhecido pela terrível desigualdade. Aconteceram mudanças sociais amplas no Brasil. Com leis que garantem salários mínimos e aposentadorias e pensões, a classe média alta deixou de poder manter empregados domésticos e motoristas. Com quotas asseguradas para o acesso à educação, estudantes negros entram afinal nas universidades públicas e no mercado de trabalho profissional, em números jamais vistos no Brasil. E com renda melhor, os pobres afinal viajam de avião, compram em shopping centers e compram casa própria em bairros tradicionalmente ‘de ricos’ (e brancos). Fato é que os governos do Partido dos Trabalhadores, sim, perturbaram a velha ordem estabelecida.

Poucos países viram, em toda a história, mudança social tão ampla, em tão pouco tempo. Assim como os ricos explodiram em fúria nos tempos de mudanças nos governos de Getúlio Vargas e João “Jango” Goulart, também dessa vez as classes privilegiadas do Brasil estão furiosas contra o PT por dar dinheiro diretamente às mães pobres, no programa Bolsa Família – que inspirou o programa indianoMahatma Gandhi National Rural Employment Guarantee Act, MNREGA (Lei Mahatma Gahdhi de Garantia Nacional de Emprego Rural).

Em seus discursos, Lula frequentemente denuncia a elite brasileira por não aceitar essa mudança social e ressentir-se por a vida dos mais pobres ter melhorado um pouco. No Brasil, muitos entendem que a atual crise foi urdida pela elite brasileira, para desestabilizar o governo e conseguir voltar ao poder.

“Os primeiros protestos contra Dilma aconteceram em 2013, quando nos preparávamos para receber a Copa das Confederações da FIFA. Naquele momento, o desemprego era o mais baixo que jamais houve no Brasil, inflação de um dígito, salários em alta, e Dilma tinha aprovação de 70%. E tanta gente exigia ‘mudanças’?! Claro q há mudanças a fazer, mas reivindicar naquele momento, e não em tantos outros, não fazia sentido. De fato, foi o início de uma operação de mudança de regime, mais uma ‘revolução colorida’, dessa vez no Brasil” – diz membro do PT que pede para não ser identificado. “Foram ações organizadas e promovidas pelas mídias sociais. Foi quase como uma operação de inteligência” – acrescenta.

Embora não haja prova de que os protestos antigoverno de 2013 tenham sido arquitetados de fora, também ali, sem dúvida possível, a multidão era indiscutivelmente ‘elite’. Pesquisa da Datafolha feita naquele momento mostrou que 90% dos manifestantes eram brancos; 77% com formação universitária. Desde 2013, todos os protestos contra o governo acontecem em áreas de classe média rica, longe das áreas onde vive a maioria da população mais pobre. Mas as mídias comerciais sempre falam da “indignação dos brasileiros”, como se todos fossem igualmente ricos, ou igualmente pobres.

No Brasil toda a imprensa/mídia comercial é controlada por oligarcas – e o país já foi chamado de “Um país de 30 Berlusconis” em documento dos Jornalistas Sem Fronteiras. Sempre houve, desde o primeiro mandato de Lula em 2003 – governo de tendência de esquerda ou apenas progressista –, guerra declarada àquele governo, pelas empresas da imprensa comercial no Brasil.

Nos anos Rousseff, a guerra tornou-se ainda mais suja. O massacre contra os governos petistas sempre foi comandado pelo Grupo Globo, que inclui dúzias de jornais, revistas, canais de TV e websites. O conglomerado, que tem monopólio quase total sobre noticiário, entretenimento, futebol e carnaval, sempre, historicamente, foi anti-PT. O grupo também apoiou ativamente o golpe militar de 1964 e cresceu, com lucros gigantes, durante os 21 anos do governo dos militares.

Mas o tom beligerante da TV Globo não caiu bem entre os brasileiros pobres e das classes médias, e muitos já trabalham para boicotar a rede. Um dia depois que o canal de TV do grupo exibiu a fita da conversa entre Lula e Rousseff, o famoso ator brasileiro Wagner Moura, astro de Narcos em Netflix, distribuiu um vídeo por sua página de Facebook, manifestando preocupação com o “circo midiático” e a “agenda política” do Judiciário. “A mídia, claro, se se examina o passado, todos os grupos estiveram envolvidos no golpe de 64” – diz Moura no vídeo.

A noite das facas longas

A mídia comercial brasileira dominante tem poder tremendo no país, mas raramente usa esse poder para questionar o Judiciário. Todos os ‘vazamentos seletivos’ feitos por Moro e pela polícia federal foram cuidadosamente publicados e repetidos.

E há graves acusações por corrupção contra altos chefes do PSDB, inclusive contra Aécio Neves e contra o presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha… o mesmo que, agora, conduz o processo de impeachment contra Rousseff. Mas a imprensa comercial absolutamente não se interessou por levantar qualquer discussão que envolva esses chefes.

Os principais intelectuais brasileiros vêm problema maior que esse. Nas palavras deJesse Jose Freire de Souza de Souza, sociólogo renomado, o Judiciário tomou a posição de “força moderadora superior”, acima da política, a mesma que, na ditadura, era ocupada pelos ditadores militares e, antes ainda, pela monarquia. “Quem possibilitou tudo isso foi a mídia-empresa comercial” – Jesse escreveu em artigo publicado semana passada.

Para comentaristas de esquerda, o país enfrenta “golpe”, e as empresas comerciais de mídia e o Judiciário trabalham juntos. Miguel do Rosário, editor de O Cafezinho,website não comercial, de esquerda, vê conspiração ainda maior que em 1964. “Semelhante a 1964, o golpe atual é apoiado pela maior empresa de mídia comercial do Brasil, Globo. Diferente de 1964, o golpe atual é resultado da ação de um Judiciário ideologicamente tendencioso, que tem três objetivos: derrubar presidenta democraticamente eleita; impedir que o ex-presidente Lula concorra às eleições de 2018; e, afinal, pôr na ilegalidade o Partido dos Trabalhadores brasileiro” – escreveu ele.

Pode soar alarmista, mas há medo no ar, no Brasil, pelo modo como as coisas vão-se desdobrando: medo pelo futuro da democracia e do Estado de Direito.

Dia 18 de março, centenas de milhares de pessoas comuns encheram as ruas em “defesa da democracia”, em 45 cidades em todo o país. A maior concentração aconteceu em São Paulo onde 250 mil pessoas, inclusive críticos do governo de Dilma e de Lula, encheram a Avenida Paulista, apesar das ameaças de violência por gangues de direita. Foi um show de força, contra “o golpe”. Foi um show da diversidade do Brasil. A noite incendiou-se quando Lula, vestindo camisa vermelha [sempre usou camisa vermelha em todos os atos do Partido dos Trabalhadores (NTs)], chegou à avenida e falou durante 20 minutos, sobre o teto de um ônibus que fechava a passagem. “Não vai ter golpe,” gritou Lula, ecoado por milhares de vozes. “Democracia tem a ver com a voz do povo, trata da voz da maioria” – disse ele, eletrizando a multidão.

A detenção de Lula energizou a esquerda brasileira. As ruas, desde 2013, estavam dominadas pela direita. Agora, com os grupos de esquerda se reorganizando, muitos temem o pior: violência e conflito social.

A disputa final

Brasileiros comuns podem estar-se preparando para brigas de rua, mas os verdadeiros jogos estão sendo jogados em Brasília, capital do país. Um juiz da Suprema Corte, Gilmar Mendes, suspendeu a nomeação de Lula para o ministério da presidenta Dilma. Cunha uniu-se ao PSDB para acelerar o impeachment de Rousseff. Michel Temer, o vice-presidente, estaria discutindo a formação do governo pós-Dilma, com José Serra, hoje senador. Há rumores de que o processo deimpeachment estará concluído no fim de abril, e de que Temer – que aparece em posição de destaque em vários casos de corrupção – assuma o governo do Brasil.

O Brasil está na corda bamba. Um ex-presidente que transformou o país pode ir para a prisão. A atual presidenta, contra quem não há qualquer acusação de corrupção, pode ser impedida. E tudo isso no ano em que o país hospedará os Jogos Olímpicos. Pois por mais que alguns temam que a atual crise venha a causar dano às instituições do país, e outros falem de uma ameaça à democracia, a elite brasileira parece não se preocupar.

Indicação do que pode estar sendo cozinhado em Brasília, Ilimar Franco, conhecido jornalista e blogueiro publicou foto de uma reunião de almoço, dia 16 de março, um dia antes de a nomeação de Lula para o ministério ter sido suspensa. Na foto, Mendes, o juiz que, no dia seguinte, suspendeu a posse, é visto almoçando com Serra e Armínio Fraga, [ex-presidente do Banco Central do Brasil, de 1999 a 2002, assessor dos dois governos do PSDB de Fernando Henrique Cardoso (NTs) e] ex-gerente do Fundo Quantum, de George Soros. A foto viralizou nas mídias sociais, com muita gente se perguntando sobre o que estariam discutindo o juiz; um ex-candidato à presidência e nome que aparece várias vezes citados nos telegramas de Wikileaks [como ‘contato’ da Embaixada e de consulados dos EUA no Brasil (NTs)], e um gerente de fundos que representa o interesse das corporações financeiras dos EUA.

É. Podem ter sentado para almoçar e discutir futebol.

Mas com Serra, mestre de conspirações políticas, no centro da ação, depois da humilhante derrota que sofreu nas eleições de 2010, quando Dilma o tirou da corrida presidencial, as próximas poucas semanas serão cruciais para o Brasil, para o PT e para a Petrobrás.

Em Brasília, a batalha está sendo chamada de “ou vai ou racha”, com alianças políticas dos dois lados do muro sob pressão intensa, para alcançar os números necessários, seja para descartar seja para aprovar o impeachment de Dilma. Dilma e Lula lutam pela democracia e pela própria sobrevivência política, mas já se veemlobbyistas trabalhando freneticamente para quebrar o monopólio da Petrobrás sobre o petróleo brasileiro.

Em meio a todas as mais ferozes disputas nos tribunais, no Congresso e nas ruas, o Senado brasileiro aprovou recentemente uma lei que pode “cancelar a exigência de que a Petrobrás seja operadora e fique com pelo menos 30% dos lucros operacionais em todos os campos do pré-sal”. Se essa lei, cujo projeto é patrocinado pelo senador José Serra, vier a ser lei, terá acabado o controle que a Petrobrás tem sobre os campos de petróleo do país. Embora fortemente rejeitado por alguns senadores, como Roberto Requião, do Paraná, a lei foi aprovada no Senado, por diferença mínima.

Surpreso ante o frenesi para privatizar os negócios do petróleo, Requião disse que a tramitação da lei está avançando “na correria, sem passar pelas comissões, com os gabinetes dos senadores cheios de lobbyistas que promovem interesses de multinacionais como Shell e British Petroleum”. Mas, ante a massiva pressão doslobbyistas, a oposição do senador Requião não foi suficiente. “Será que o Brasil perdeu a maioria no Senado, para petroleiras multinacionais? Ainda espero que não” – o veterano senador tuitou, depois da votação.

Agora o projeto de lei vai à Câmara de Deputados e, na sequência, terá de ser sancionado pela presidenta. Rousseff ainda pode vetar o projeto de lei. Mas, se o vice-presidente Michel Temer, que se separou de Dilma, assumir a presidência em lugar dela, há bem pouca dúvida de que o projeto será sancionado e se converterá em lei. Significaria que todo o drama que o Brasil está vivendo – detenção de Lula,impeachment de Dilma e perseguição incansável ao PT – resume-se, afinal, a petróleo.

Como voz do Big Oil, The Economist põe o Brasil outra vez na capa, essa semana. “Time to go” [Hora de sair], diz a revista, sobre uma foto de Dilma com ar desolado. Repetindo o mesmo velho script de “má administração da Economia”, a revista ‘exige’ a remoção, do governo, de uma governante eleita, que recebeu seu mandato, de pleno direito, em eleições livres e justas, ocorridas há menos de 15 meses.

Hoje, a elite e o complexo midiático-judiciário brasileiro também seguem o mesmoscript. Como aconteceu com presidentes anteriores – Vargas, Quadros e Goulart –, se Dilma Rousseff tiver de deixar o governo, as multinacionais do petróleo terão vencido mais uma vez. E mais uma vez o Brasil terá sucumbido a um golpe de Estado.*****

 


* Shobhan Saxena é jornalista, indiano, que cobre assuntos da América do Sul, com base em São Paulo.

[1] Esse telegrama, datado de 13/2/2010, “coordenado entre os consulados do Rio de Janeiro e São Paulo, foi distribuído para as embaixadas dos EUA em “ARGENTINA BUENOS AIRES | BOLIVIA LA PAZ | BRAZIL BRASILIA | BRAZIL RIO DE JANEIRO | BRAZIL SÃO PAULO | CHILE SANTIAGO | COLOMBIA BOGOTÁ | PERU LIMA | SECRETARY OF STATE | URUGUAY MONTEVIDEO | VENEZUELA CARACAS”.

Nele se lêem opiniões de William Waack, em conversas com o Cônsul Geral dos EUA:

(C) O jornalista William Waack conversou detalhadamente com o [Cônsul Geral] CG Sao Paulo, em recente fórum de negócios do qual participaram Serra, Rousseff, Neves and Gomes. Segundo Waack, Gomes é o mais forte de todos; Neves, o mais carismático (sic), Serra desligado mais claramente competente; e Rousseff a menos coerente”.

Sempre coerente na missão de desinformar, o portal G1.Globo des-noticiou que “wikileaks não diz que Waack é informante dos EUA”. Agora, já se sabe que sim, Wikileaks diz e prova. A blogosfera noticiou tudo, na hora que aconteceu (NTs).

Fonte: O CAFEZINHO